Antonin Artaud

Janeiro 22, 2008

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Man Ray [ Antonin Artaud ] 1926

DESCRIÇÃO DE UM ESTADO FÍSICO

uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva, o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa,
a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante,
um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele, que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro, e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
Haveria que falar agora da descorporização da realidade , dessa espécie de ruptura, dir-se-ia que aplicada a multiplicar-se a si própria entre as coisas e o sentimento que elas produzem no nosso espírito, o lugar que devem ocupar.
Essa classificação instantânea das coisas nas células do espírito, não tanto segundo a sua ordem lógica lógica, ma segundo a sua ordem sentimental afectiva
(que já não se faz):
as coisas já não têm odor, não têm sexo. Mas também a sua ordem lógica se rompe por vezes por falta de alento afectivo. As palavras apodrecem ao apelo inconsciente do cérebro, qualquer palavra para qualquer operação mental, e sobretudo as que tocam nas molas mais habituais, as mais activas no espírito.

Antonin Artaud, in “o pesa-nervos” hiena (1991)
tradução de Joaquim Afonso

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