Raymond Queneau

Junho 9, 2008

A EXPLICAÇÃO DAS METÁFORAS

Longe do tempo e do espaço um homem se perdeu
Fino como um cabelo, vasto como a aurora.
Narinas espumantes, olhos esgazeados,
Com as mãos estendidas a tactear o cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E essas narinas fora das três dimensões?

Se falo do tempo, é porque não é ainda.
Se falo dum sítio, esse lugar sumiu-se.
Se falo dum homem, em breve morrerá.
Se falo do tempo, o tempo terminou.

Se falo do espaço, um deus vem destruí-lo,
Se falo dos anos, é para aniquilar,
Se oiço o silêncio, um deus põe-se a mugir
E os seus gritos repetidos incomodam-me.

Estes deuses são demónios: rastejam pelo espaço
Finos como um cabelo, amplos como a aurora,
Narinas espumantes, a baba pelas faces
E as mãos estendidas a tactear um cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E estas faces fora das três dimensões?

Se falo dos deuses, é porque cobrem o mar
Com o seu peso infinito e o voo imortal.
Se falo dos deuses, é porque povoam os ares,
Se falo dos deuses, é porque são perpétuos.

Se falo dos deuses, é porque vivem sobre sob a terra,
Insuflando no solo seu hálito vivaz,
Se falo dos deuses é porque eles chocam o ferro,
Amassam o carvão, distilam o zenabre.

Deuses ou demónios? Enchem o tempo todo
Fino como um cabelo, amplo como a aurora?
Os olhos estalados, narinas espumantes,
E as mãos estendidas a tactear um cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E porquê estas mãos fora das três dimensões?

Sãos demónio, sim. Um desce, o outro sobe.
A cada noite, um dia, a cada monte um vale.
A um dia uma noite, à árvore sua sombra.
Um nome a cada ser, a todo o bem seu mal.

Sim, são reflexos, imagens negativas,
Agitando-se em figuras imóveis,
Lançando-se no vácuo em viva multidão
E formando um duplo para cada verdade.

Mas o homem — um deus, um demónio — perdeu-se
Fino como um cabelo, vasto como a aurora,
Narinas espumantes, olhos esgazeados,
As mãos estendidas a tactear um cenário.

Raymond Queneau, in
Franco Fortini “O Movimento Surrealista” presença, 1980
trad. António Ramos Rosa

Paul Éluard

Junho 9, 2008

ORDEM E TURBULÊNCIA DO AMOR

Para começar citarei os elementos
A tua voz os teus olhos as tuas mãos os teus lábios

Eu vivo sobre esta terra e pergunto-me
Se nela viveria se tu nela não estivesses também

Neste banho postado em face
Do mar de água doce

Neste banho que a chama
Edificou nos nossos olhos

Este banho de lágrimas jubilosas
Em que penetrei
Pela virtude das tuas mãos
Pela graça dos teus lábios

Este estado humano primordial
Como uma pradaria dos começos

Os nossos silêncios as nossas palavras
A luz que se vai
A luz que de novo volta
A aurora e o crespúsculo fazem-nos rir

No cerne do nosso corpo
Tudo se torna flor e amadurece

Sobre a palha da tua vida
Onde deito a velha carcaça

Em que me tornei por fim.

Paul Éluard, in “últimos poemas de amor” relógio d’água, 2002
trad. Maria Gabriela Llansol

Louis Aragon

Março 19, 2008

3282151.jpg

AS REALIDADES
(fábula)

Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda que está
a re a re a realidade.

Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insónia
Então chegava a madrinha fada
e realmente levava-a pela mão
a re a re a realidade.

No trono havia uma vez,
um velho rei que se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade.

CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.

Louis Aragon

in Franco Fortini “o movimento surrealista” presença, 1980
tradução António Ramos Rosa

Pierre Reverdy

Março 19, 2008

MEMÓRIA

Apenas um minuto
E já voltei
De tudo o que passou nada guardei
Um ponto
O céu mais amplo
E no último momento
A lanterna que passa
O passo que se ouve
Detém-se alguém entre tudo o que vai
Deixa-se andar o mundo
E o que está lá dentro
As luzes dançam
E a sombra estende-se
Já não há espaço
Olhando para a frente
Numa gaiola onde salta um animal vivo
O peito e os braços repetiam o gesto
Uma mulher ria
Voltando a cabeça
E aquele que chegava tinha-nos confundido
Nenhum dos três se conhecia
E nós éramos já
Um mundo cheio de esperança

Pierre Reverdy

in Franco Fortini “o movimento surrealista” presença, 1980
tradução António Ramos Rosa

Max Jacob

Março 19, 2008

jacob.jpg

NOCTURNO DAS VACILAÇÕES FAMILIARES

Há noites que terminam numa estação! Há estações que terminam na noite! Quantos carris não atravessámos de noite! Tenho o corpo dorido dos ângulos salientes do vagão, à noite; dói-me ainda o deltóide. Quando esperávamos a irmã mais velha ou o papá, aquilo acabava sempre de maneira que seria melhor não contar: com o par de sapatos regado pela farinha do pão. Mas tenho, numa estação, um irmão antipático: chega sempre no último momento (tem lá as suas ideias); e então é preciso abrir uma mala que o criado não trouxe ainda; e, quando chega à bilheteira, não sabe ainda para que estação deve dirigir os vagões: hesita entre Nogent-sur-Marne e Ponts-de-Cé e outras localidades. A mala está aqui, aberta. Não comprou ainda o bilhete e as lanternas a gás debalde procuram transformar a noite em dia e o dia em noite. Há noites que terminam numa estação e estações que terminam na noite. Ah, maldita hesitação, foste tu que me perdeste e bem longe das vossas salas de espera, ó estações!

Max Jacob

in Franco Fortini “o movimento surrealista” presença, 1980
tradução António Ramos Rosa

René Char

Março 19, 2008

15916.jpg

QUERIA SER ACONTECIMENTO

Queria ser acontecimento. Imaginava-me partitura. Era desajeitado. A caveira que, mau grado meu, substituía a maçã que amiúde levava aos lábios, só eu a via. Punha-me a um canto para mordê-la correctamente. Dado que não é possível andar a passear nem pretender fazer o amor com um fruto semelhante entre os dentes, decidi, quando tinha fome, dar-lhe o nome de maçã. E já não me incomodou mais. Só mais tarde me apareceu o objecto que me embaraçava em forma gotejante, mas sempre ambígua, de poesia.

René Char

in Franco Fortini “o movimento surrealista” presença, 1980
tradução António Ramos Rosa

Mário Cesariny

Janeiro 22, 2008

fernandolemos-cesariny.jpg

AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro – nunca será um escravo.
Autoridade e Liberdade são uma e a mesma coisa.

Mário Cesariny, in “A única real tradição viva, antologia da poesia surrealista portuguesa” assírio & alvim, 1998
organização de Perfecto E. Cuadrado

António José Forte

Janeiro 22, 2008

img082.jpg

RESERVADO AO VENENO

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte, in “uma faca nos dentes” & etc, 1983

António Maria Lisboa

Janeiro 22, 2008

antonio-maria-lisboa-pedro-oom.jpg
VÍRGULA

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

António Maria Lisboa, in “Poesia” assírio & alvim, 1995

Antonin Artaud

Janeiro 22, 2008

man-ray.jpg
Man Ray [ Antonin Artaud ] 1926

DESCRIÇÃO DE UM ESTADO FÍSICO

uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva, o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa,
a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante,
um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele, que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro, e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
Haveria que falar agora da descorporização da realidade , dessa espécie de ruptura, dir-se-ia que aplicada a multiplicar-se a si própria entre as coisas e o sentimento que elas produzem no nosso espírito, o lugar que devem ocupar.
Essa classificação instantânea das coisas nas células do espírito, não tanto segundo a sua ordem lógica lógica, ma segundo a sua ordem sentimental afectiva
(que já não se faz):
as coisas já não têm odor, não têm sexo. Mas também a sua ordem lógica se rompe por vezes por falta de alento afectivo. As palavras apodrecem ao apelo inconsciente do cérebro, qualquer palavra para qualquer operação mental, e sobretudo as que tocam nas molas mais habituais, as mais activas no espírito.

Antonin Artaud, in “o pesa-nervos” hiena (1991)
tradução de Joaquim Afonso